Revista da Folha 28/09/2008

Atrás de uma guinada na carreira ou simplesmente Para manter a cabeça ativa, paulistanos voltam à universidade


Rodrigo Marcondes/Folha Imagem

Depois de exercer a advocacia, Juliana, 26, estuda enfermagem

calouros veteranos
por Ocimara Balmant

Vestida de jaleco branco, a advogada Juliana Belchior, 26, assiste à contratação de amigos por importantes escritórios de advocacia e à aprovação de outros em concursos concorridos para a promotoria e para a magistratura. Nada que a empolgue. Depois de três anos advogando, Juliana não quer saber do Código Civil. Ela fez seis meses de cursinho, prestou vestibular e está de volta à universidade como caloura de enfermagem.

"Cheguei ao meu limite. Não ficaria 30 anos fazendo o que eu não gosto", diz. Longe do salto alto, da calça social e das ações trabalhistas, ela cumpre uma rotina puxada de um curso em período integral na Unifesp que não lhe permite trabalhar. As despesas da república, que divide com três amigas, e os custos pessoais são pagos com as economias do tempo em que advogou.

Guinadas profissionais como a de Juliana são cada vez mais comuns. As universidades de São Paulo, tanto públicas como privadas, não param de receber calouros diplomados.

Para ter uma idéia dessa movimentação, só nas três públicas paulistas (USP, Unesp e Unicamp), cerca de 15% dos ingressantes já tinham começado outro curso superior -as particulares não dispõem desse levantamento.

"Antes, as pessoas achavam que voltar para a graduação era andar para trás", conta Eduardo Ehlers, 43, diretor de graduação do Centro Universitário Senac. Muito pelo contrário. "Se a decisão for consciente, a escolha aponta para um novo futuro."

Três fatores, segundo ele, impulsionam a busca por uma segunda graduação: a maior permanência no mercado de trabalho, a diversificação das carreiras e a acessibilidade. O profissional pode se apaixonar por um curso que não existia em sua época de universitário, diz Eduardo. "Há mais oferta de vagas e menos pressa em se aposentar hoje em dia."

Juliana, por exemplo, vai receber seu segundo diploma aos 30 anos. Desta vez, ela está certa da nova escolha. "Vou me dedicar à epidemiologia, que, inclusive, tem uma relação com o direito, já que envolve políticas públicas e questões normativas", diz.

A "ex-advogada" tem razão. A combinação entre duas carreiras aparentemente díspares mostra como a aprendizagem pode e deve ser multidisciplinar. "A verdade é que existe correlação entre tudo. A gente é que vê de forma estagnada", afirma Adriana Gomes, professora da pós-graduação da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), autora do livro "Mudança de Carreira e Transformação da Identidade" (ed. LCTE, 128 págs., R$ 22).

Da planilha à argila
E quem disse que aos 40 já não dá para fazer mais nada? Com as mãos cheias de argila e depois de 42 anos na ativa como engenheiro civil, Rubens Gomiero, 68, tirou de letra o exercício de unir uma paixão à outra. No começo deste ano, ele passou a freqüentar o curso de artes visuais no Senac.

"Enquanto descanso, carrego pedras", brinca ele, ao contar sobre como concilia as duas atividades. Rubens vai à faculdade pela manhã. De lá, segue direto para o escritório de engenharia, onde coordena a construção de um porto em Belém (PA).

A rotina agitada tem seu preço. "Nem à novela assisto mais. Quando volto para casa, tenho de estudar", diz ele, sem perder o humor. O "calouro" descobriu o curso por acaso, ao folhear um prospecto. "Sempre trabalhei o lado esquerdo do cérebro. Agora, botei o direito, o da emoção, para funcionar", conta. Similaridade entre os cursos, só na aula de desenho. "Na engenharia, é com régua e compasso. Nas artes visuais, o desenho é feito a partir da observação, com modelo vivo e tudo", explica.

Estudantes tarimbados
A paulistana Marina Franceschinelli, 22, cruzou o mundo, literalmente, para encontrar sua vocação. Fez um ano e meio de hotelaria na Austrália, mas acabou desencantada com a futura profissão e voltou para São Paulo. Para fazer direito.

Seu barato é trabalhar com o terceiro setor. Teve sorte. Quatro meses atrás, conseguiu emprego numa multinacional com salário de R$ 2.000. E para fazer o que gosta. "Cuido dos projetos sociais. Seleciono e coordeno voluntários e faço elaboração de projetos."

Na bagagem, Marina trouxe a fluência nas línguas inglesa, francesa, italiana e espanhola. "Aprendi os idiomas porque queria trabalhar com hotelaria. Foi fundamental para conseguir o atual emprego", diz.

Como se vê, o jeito de encarar uma carreira não é mais como no tempo dos nossos pais. "Antes, você pensava que seu filho ia fazer medicina para ser médico ou direito para ser advogado", diz Tânia Casado, coordenadora do curso de Gestão de Pessoas da FIA-USP. Hoje, esse cenário mudou. "Carreira é a seqüência de experiências vividas ao longo do tempo."

A estudante Lamy Choi, 28, concorda. Ela nunca pensou em ser contabilista. Decidiu entrar nesse ramo no meio da faculdade de direito, por causa de um estágio na área tributária. Concluiu o curso, passou na prova da OAB e não teve dúvidas. Começou a estudar ciências contábeis. Mas pretende atuar como consultora financeira.

No lugar da pós, optou por outra graduação. "Ela oferece um conhecimento mais profundo. E ainda existe o contato diário com a turma, o que permite aumentar o círculo de colegas", diz.

A agenda de Cesar Augustus Guttilla, 44, é uma prova dos amigos colecionados nas quatro graduações: economia -interrompida no terceiro ano-, veterinária, direito e, agora, (acreditem) medicina.

O "estudante tarimbado" trabalha numa clínica veterinária. "Assumi o risco de ganhar menos e aumentar os gastos, mas o aprendizado compensa", empolga-se. O curso de medicina é integral, só que o aluno consegue manobrar a agenda para atender na clínica no finzinho de tarde e aos sábados e domingos.

Ainda consegue arrumar tempo para fazer "bicos" como advogado. "Só em pequenas causas e para os amigos", avisa. Diante de tantas formações, Cesar ainda não está convencido de que é o suficiente. Não descarta mais uma faculdade no futuro.

Como diz a professora Adriana, da ESPM, "saber o que se quer e para onde se quer ir é um exercício de reflexão diário que leva tempo". Aos interessados, vale aqui um lembrete: geralmente, essas mudanças podem acarretar perdas financeiras, ao menos no início.


 
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