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Você escolheu a profissão certa?
Patrícia Bispo
[20/10/2008]
Não são raros os casos em que pessoas consideradas profissionais bem-sucedidos enfrentam problemas de saúde como pressão alta, crises de enxaquecas constantes, dores no estômago e até um alto nível de estresse. Mas, o que acontece com quem teoricamente ocupa um cargo de destaque na organização, tem uma atraente remuneração e uma confortável sala de trabalho? O problema em si pode não estar diretamente relacionado à organização, mas sim ao próprio indivíduo. Isso mesmo, a problemática pode estar centrada no profissional que por algum motivo não se sente mais realizado com aquela rotina. Trata-se de alguém que perdeu o juízo, já que tantos trabalhadores buscam uma colocação no mercado e não conseguem uma única oportunidade para demonstrar seu talento? Não obrigatoriamente!
O motivo de tais problemas podem ser reflexos de uma insatisfação pessoal com aquela realidade que o próprio profissional escolheu anos atrás. Isso mesmo, ele pode ter alcançado a chamada maturidade na carreira, mas compreende que aquele “universo” não atende às suas necessidades. Nesse caso, existem duas alternativas. A primeira é tentar sobreviver, levando a insatisfação com a “barriga” ou, então, dar uma guinada na vida e abraçar uma nova profissão. Contudo, isso não é algo fácil como trocar uma peça de roupa que não agrada. Muito pelo contrário. Dar um novo rumo à carreira, depois de anos de trabalho mexe profundamente com o indivíduo.
Segundo Adriana Gomes, mestre em psicologia, consultora de carreira e autora do livro “Mudança de Carreira e Transformação da Identidade”, lançado pela LCTE Editora, afirma que com a expectativa de vida, as pessoas estão buscando novos horizontes tanto para o campo pessoal quanto profissional. A conseqüência é vista em pessoas que se encontram em um estado de amadurecimento profissional estável, mudarem completamente suas vidas e ingressarem em um mundo novo, completamente diferente daqueles a que estavam acostumadas.
Em seu livro lançado recentemente, por exemplo, Adriana Gomes diz que a proposta da sua iniciativa foi divulgar um trabalho de pesquisa qualitativa que buscou explorar e compreender as razões que levam pessoas aparentemente bem-sucedidas profissionalmente a mudar radicalmente de carreira. “Não aqueles profissionais que foram demitidos, mas sim os que estão em um rumo profissional ascendente de suas carreiras e que percebem que não estão felizes com a escolha profissional que fizeram”, explica. Em entrevista concedida ao
RH.com.br, a consultora de carreira, afirma que mudar de carreira não é um fato isolado, mas que tomar essa decisão é algo que precisa ser planejado estrategicamente ou os resultados podem ser negativos para o profissional. Confira a entrevista na íntegra e aproveite a leitura!
RH.COM.BR - As pessoas têm mudado de carreira com freqüência, mesmo quando já se encontram em um estado de maturidade profissional?
Adriana Gomes - Muitas pesquisas dão conta desse fato que você acabou de citar. O que acontece com freqüência é um alto grau de insatisfação profissional, em todos os níveis. Porém para mudar é preciso algumas condições, que são exploradas no livro de minha autoria.
RH - Por que os profissionais estão adotando esse tipo de comportamento?
Adriana Gomes - As pessoas estão vivendo mais, a perspectiva de vida aumentou para 74 anos com qualidade de vida, quando há algumas décadas atrás era de 60 anos aproximadamente. Isso deve levar muitas pessoas a repensar suas escolhas e motivá-las a fazer alguma coisa mais proveitosa e satisfatória, com mais significado profissionalmente, uma vez que o trabalho pode representar além dos ganhos financeiros, aumento da auto-estima, gratificação pessoal, reconhecimento público, enfim, muitos outros ganhos diretos e indiretos que tornam a vida mais prazerosa.
RH - Romper com uma rota profissional ascendente requer que cuidados?
Adriana Gomes - Essa ruptura de mudar de uma carreira para outra, geralmente acontece quando se imagina que as perdas serão menores do que os ganhos futuros. Entretanto, é evidente que uma boa avaliação e planejamento para fazer essa mudança são fundamentais para que a pessoa não se arrependa depois.
RH - Que reflexões a pessoa deve fazer antes de mudar de profissão?
Adriana Gomes - O exercício de autoconhecimento é fundamental para quem vai mudar o rumo de uma profissão, além de entender quais são os fatores de desagrado que podem surgir no decorrer daquela nova trajetória. A pessoa deve ser capaz de identificar, o mais objetivamente possível, quais são os seus objetivos, o que e como fazer para chegar lá e traçar planos de ação para atingir suas metas. É preciso ter paciência e determinação, além de persistência. Não se pode descuidar, por exemplo, dos aspectos financeiros envolvidos nesse processo. Por isso, uma boa reserva financeira é considerada um fator estratégico.
RH - Mudar de campo de atuação é sempre uma caixa de surpresas para os profissionais?
Adriana Gomes - Sim e esse deve ser considerado um grande desafio. Contudo, é possível preparar-se adequadamente para a mudança quando se tem claro os objetivos. Pensar que um bom planejamento faz com que esse processo de transição não seja abrupto e traga conseqüências não desejáveis pelo profissional.
RH - A mudança de carreira traz impactos da identidade pessoal do indivíduo?
Adriana Gomes - Sem dúvida alguma, pois o trabalho ajuda a constituir a identidade de uma pessoa. Muitos profissionais, por exemplo, apresentam-se como “fulano de tal da empresa X”, o sobrenome da pessoa passa a ser o nome da instituição onde ela trabalha. Não é raro quando a pessoa deixa essa empresa “X”, o indivíduo precisa dar uma série de explicações para dizer quem é “fulano de tal”. È como se parte da identidade dele tenha se perdido com ao se desligar da empresa. O trabalho que o profissional desenvolve acaba sendo ou representando grande parte da sua identidade. Essa situação é bem comum, tanto que costumeiramente após perguntarmos o nome de uma pessoa, perguntamos o que ela faz e isso contribui para construir uma identidade que será percebida socialmente. Quando alguém abandona essa atividade, ela precisará reconstruir sua identidade profissional frente a sociedade.
RH - Essa mudança de comportamento dos profissionais está gerando reflexos significativos para o mercado?
Adriana Gomes - Não posso avaliar o impacto desse processo em escala mercadológica. Entretanto, pensar que pode existir alguma possibilidade de mudança para alguém que sofre em relação à escolha profissional - atividade que desenvolvemos a maior parte da nossa vida - já significa uma ampliação dos horizontes e uma possibilidade de fazer alguma atividade significativa e gratificante. Isso, por sua vez, melhora muito a percepção da qualidade de vida do indivíduo.
RH - Em sua visão, qual o perfil de um profissional de sucesso?
Adriana Gomes - A definição de sucesso é algo muito pessoal, apesar de termos acesso a inúmeras publicações de revistas que afirmam que existem algumas “receitas” para se alcançar o sucesso. Eu questiono bastante esse tipo de posicionamento. Para mim, sucesso é fazer alguma coisa que se gosta realmente, com flexibilidade e autonomia e ainda ganhar dinheiro para ter uma vida confortável. Se alguém estivesse fazendo orientação profissional comigo falasse sobre as “receitas” para o sucesso, eu questionaria cada um dos conceitos apresentados. Ou seja, o que é fazer o que se gosta e o que poderia ser isso? O que é flexibilidade e autonomia? Quanto em rentabilidade seria suficiente para a pessoa ter uma vida confortável e o que significa conquistar uma vida confortável? Eu sei o que isso significa para mim.
RH - O sucesso está diretamente relacionado à fama como muitas pessoas acreditam?
Adriana Gomes - Se a fama é o representante significativo para uma pessoa, sim, isso pode ser verdadeiro. Se isso, de fato, representar um valor para ela. Caso contrário, pode ser considerado um incomodo.
RH - Que conselhos a senhora deixaria para as pessoas pretendem mudar os rumos da carreira?
Adriana Gomes - Bem, acho que a leitura do meu livro pode ser um bom começo, pois levará a pessoa a entender um pouco o contexto da mudança e não apenas a mudança em si, o que eu penso ser fundamental. Além disso, é fundamental trabalhar o autoconhecimento, identificar o que quer fazer, por quais razões essa escolha faz sentido para sua vida e a partir daí, começar a traçar planos de ação
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