...As empresas não
querem e muito menos gostam de adoecer, mas adoecem. São inúmeros
os tipos de enfermidades que afetam as organizações e,
seja qual for, essa enfermidade sempre irá repercutir na saúde
de seus colaboradores. Especialmente na saúde emocional. A “neurose
corporativa” tornou-se de uns tempos para cá, verdadeira
epidemia e trabalhar em certas organizações se revelou
experiência de alto risco.
...O processo de “corrosão
do caráter”, na expressão do sociólogo americano
Richard Sennett, continua produzindo suas vítimas, sem distinção
de “ CEOS” a peões – realmente um processo
democrático!
Dizem alguns que empresas estão virando manicômios –
nada mais equivocado.
...Manicômio por definição
é local que só admite doentes mentais e seu escopo é
curá-los. As empresas, em contraposição, fazem
questão de só admitir pessoas saudáveis, inteligentes,
criativas e muito mais. E o que acontece com essa gente maravilhosa
e suas incríveis qualificações? As publicações
especializadas relatam, cada vez com mais freqüência, depoimentos
e mais depoimentos de profissionais de todo tipo com acerbas acusações
a condutas pouco inteligentes de algumas corporações.
...Há, no entanto, empresas preocupadas
com este cenário e que recorrem a certas ações
contingenciais com o intuito de minimizar o impacto do fenômeno
na saúde dos grupos e das pessoas.
...O recurso mais recorrente nestes casos
é o emprego de atividades coletivas do tipo: dinâmicas
de grupo, jogos estruturados, exercícios de relaxamento, psicodramas,
vivências em condições exóticas e outras.
Na aplicação do tratamento grupal, todo cuidado é
pouco – há intervenções sérias e há
aquelas apenas bucólicas ou mesmo hilárias que, no máximo,
conseguem reduzir o nível de tensão negativa entre os
participantes.
...Em
empresas saudáveis, maduras, tais atividades produzem efeitos
positivos de reforço das relações internas e de
maturação das equipes. Já, em empresas doentias,
elas não passam de placebo ou de tática diversionista.
...Entretanto,
mesmo na hipótese de que o tratamento grupal fosse sempre benéfico
para restaurar as relações interpessoais, um aspecto permanece
descoberto: o indivíduo. É que as causas dos distúrbios
emocionais ainda que sejam comuns a todos os colaboradores, temos de
admitir que os efeitos são diferentes em cada indivíduo.
O cerne da disfunção emocional presente em cada indivíduo
esse permanece intocado. E, se o problema é individual, o tratamento
só pode ser individualizado.
...Não
é sem razão que, ultimamente, muitas empresas passaram
a dar mais atenção ao indivíduo incentivando e
implantando práticas voltadas preferencialmente a ele, indivíduo.
Entre essas práticas estão o Coaching, o Mentoring, o
Counseling e em alguns casos; o encaminhamento psicoterápico.
Cada vez mais executivos vêm procurando serviços de ajuda
profissional, fora da empresa e por conta própria.
...Segundo a “National
Career Development Association” , por exemplo, o Counseling é
o nicho que mais cresce nos Estados Unidos, dentro do setor de consultorias
de RH.
...O Counseling, como já tivemos
ocasião de escrever na revista T e D, é com certeza o
decano de todas as práticas de desenvolvimento humano nas organizações.
E não, como afirma a EXAME em sua edição 816 (
28 de abril), que se trata do mais recente método de aprimoramento
profissional.
...Foi Carl Rogers que, em 1942, recomendou
sua prática nas empresas e é o próprio Rogers quem
nos fornece um esboço de definição do Counseling
: “ Um esforço planejado para utilizar entrevistas na melhoria
das atitudes .....ajudar os empregados a resolver seus problemas pessoais”.
O Counseling busca acima de tudo o fortalecimento do núcleo da
personalidade o que implica, muitas vezes, na revisão de valores
pessoais e mudanças no estilo de vida. Não podemos esquecer
que um dos efeitos mais perniciosos no rastro dos desequilíbrios
corporativos é a fragilização do ego das pessoas
envolvidas e, claro, personalidades fragilizadas se tornam incapazes
de sustentar um desempenho profissional de alta ou mesmo de média
exigência.
...Não é de egos frágeis
que as empresas mais precisam, especialmente em se tratando de pessoas
em postos de liderança; é aí que o Counseling funciona
como uma espécie de tonificante do ego, tornando-o mais resistente
às crises corporativas e conferindo-lhe mais “resiliência”,
que é a capacidade de absorver os impactos do meio, preservando
sua identidade.
...Apesar de seu caráter predominantemente
profilático, o Counseling não deixa de produzir efeitos
igualmente terapêuticos e, nesse aspecto, apresenta parentesco
com as técnicas psicoterápicas.
...Mesmo que não se possa apontar
a empresa como a única responsável pelo surgimento dos
problemas emocionais, pelo estresse, pela ansiedade, ainda assim cabe
a ela uma parcela mais do que significativa na produção
do mal-estar psicológico e, por isso mesmo, pode-se cobrar dela
maior atenção no atendimento dos casos e, acima de tudo,
maior atenção com sua própria sanidade.
...Waldir
Biscaro
...(Autor
do livro: MATURIDADE E PODER PESSOAL –Ed. Brasiliense)
...Fone: 5084-4336
...e-mail: awbiscaro@uol.com.br